Eles são todos iguais?

Cynthia Coutinho*

Você acha que todos as/os candidatas/os a prefeito são parecidos e não sabe qual escolher? É comum nos depararmos com eleitores desanimados com a competição para os cargos representativos, afirmando que políticos são todos farinha do mesmo saco e que todos eles aparecem só nas eleições, prometendo sempre as mesmas coisas, apenas para conseguir voto. Esta percepção pode desestimular muitos eleitores a procurar, entre os candidatos de sua cidade, as propostas que melhor se encaixam nas suas preferências e a votar sem muita reflexão, ou até mesmo a anular o seu voto. Mas será que estamos, de fato, sem opção, fadados a trocar, a cada eleição, seis por meia dúzia?

A percepção de que não há uma diferenciação entre os programas nas eleições municipais está relacionada à uma visão tradicional da política brasileira que entende que fatores como a pobreza, um suposto déficit cívico, além de regras eleitorais que estimulariam um comportamento individualista dos políticos em detrimento da coesão com os seus partidos, afetariam a disputa eleitoral, privilegiando práticas clientelistas. Nesta perspectiva, não faria sentido uma estratégia eleitoral organizada em torno de políticas programáticas. Ao invés, os políticos se orientariam por práticas atrasadas como compra de votos, apadrinhamento, concessão de favores pessoais e comportamentos populistas. Os municípios menores e menos urbanizados estariam ainda mais inclinados a este tipo de prática, uma vez que estariam mais sujeitos à influência das oligarquias locais.

Por outro lado, uma análise mais minuciosa das disputas eleitorais nos permite problematizar esta visão negativa sobre a política brasileira. O panorama da competição eleitoral no Brasil aponta para dinâmicas diversificadas na conquista do eleitor e a orientação programática tem se mostrado uma estratégia de diferenciação na corrida eleitoral, com o objetivo de auxiliar a população a distinguir quais as plataformas mais próximas de suas preferências. Neste contexto, os programas de governo se revelam elementos importantes nas estratégias eleitorais para se diferenciar programaticamente perante o eleitor.

No pequeno município de Aroazes – PI, por exemplo, cuja vocação é essencialmente agrícola e onde a disputa eleitoral só tem dois candidatos em 2020, ao analisar os programas de governo disponíveis, podemos observar diferenciações programáticas entre eles. Na análise de contexto de palavras como agrícola e agricultura, enquanto no plano de um dos candidatos se observa a predominância de propostas ligadas à agricultura familiar, no do outro a estratégia é se diferenciar focando no incentivo de áreas específicas do setor agrícola.

Já ao analisar os planos de governo dos candidatos de uma grande capital, como São Paulo, uma breve análise das palavras mais frequentes e da relação entre elas no programa revela pistas das dimensões programáticas nas plataformas políticas dos diferentes partidos no pleito. Por exemplo, enquanto nos programas de partidos mais orientados à esquerda como PT, PSOL e PCdoB temos palavras como trabalho e trabalhadores entre as palavras frequentes, que aparecem em contextos associados a direitos sociais e questões de minorias, nos planos de partidos mais orientados à direita como NOVO e PATRIOTA aparecem as palavras privado e capital fortemente associadas ao contexto da gestão municipal, indicando propostas de privatizações de serviços públicos e de parcerias público-privadas.

Considerando que há questões que não se pode deixar de fora em um programa de governo para qualquer município – seja ele grande ou pequeno, urbano ou rural – como ampliação de vagas nas escolas ou estratégias de expansão dos atendimentos do SUS, é natural que exista certa convergência entre os candidatos em relação a estes temas.

Porém, isto não significa uma dinâmica política carente de orientação programática por parte dos políticos. A ênfase em determinados assuntos nas campanhas em detrimento de outros também tem se configurado como uma estratégia para comunicar aos eleitores suas políticas e posições, se diferenciando dos outros candidatos. Neste sentido, analisar as proposições para a sua cidade e buscar aquelas que mais se ajustam ao seu perfil é uma prática indispensável para o eleitor interessado em exercer seu papel de cidadão e em aprimorar a política no país.

 

 

 

*Cynthia Coutinho é doutoranda em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).